Nádia Pereira dá nova vida a um livro em Braille para todas as crianças

Nádia Pereira prepara uma nova edição do livro infantil, adaptada em Braille e Língua Gestual Portuguesa. A campanha de crowdfunding entra na reta final e precisa de 1.777 euros para avançar

A magia de uma história pode ser igual para todas as crianças. É essa a ideia que Nádia Pereira quer concretizar com a nova edição de “O Gato Tagarela”, livro infantil distinguido com um prémio literário e que está agora a ser preparado numa versão adaptada em Braille e Língua Gestual Portuguesa (LGP).

Artista de V.N. Gaia, com trabalho nas áreas da escrita, dramaturgia, representação, clown e música, Nádia Pereira lançou uma campanha de crowdfunding para recuperar uma obra que nasceu em 2013 e que acabou por desaparecer do mercado após a falência da editora. No entanto, “O Gato Tagarela” continuou vivo através do espetáculo musicado que lhe está associado.

“No final dos espetáculos as crianças e os adultos perguntavam onde podiam comprar o livro e, de alguma forma, sentia que havia uma lacuna por preencher”, conta a artista, recordando também que a primeira edição teve “uma ótima adesão” e que muitas crianças escolhiam a obra como primeira experiência de leitura quando estavam a aprender a ler.

A nova edição nasce com uma ambição diferente. Nádia quer que o livro tradicional, o Braille e a LGP convivam no mesmo projeto, permitindo que crianças com diferentes formas de comunicar e aprender tenham acesso à mesma história.

“Tem um significado transformador e profundamente emocional. Imaginar uma criança cega a ler as texturas do Braille e uma criança surda a conhecer a história através da Língua Gestual Portuguesa – e perceber que ambas estão a partilhar exatamente a mesma experiência – é a concretização do maior sonho que podia ter enquanto criadora”, explica.

Para a autora, “a magia de ler uma história devia ser algo acessível a todas as crianças” e a inclusão passa por “criar as mesmas possibilidades para todas”.

Uma experiência que mudou o projeto

A decisão de avançar com uma obra inclusiva também está ligada a uma experiência vivida pela própria artista. Durante um espetáculo de clown perante crianças surdas, percebeu que tinha de encontrar outra forma de comunicar.

“Quando atuei pela primeira vez para crianças surdas, senti de forma avassaladora que tinha a obrigação ética e artística de conseguir fazer chegar a mensagem com a mesma exata qualidade, a mesma inteireza e a mesma autenticidade que entregava a qualquer outro público”, recorda.

Esse momento levou-a a concluir que era necessário fazer diferente. “As sociedades modernas falham redondamente na inclusão, porque o mundo lá fora não está apetrechado de igual forma para todos”, afirma.

É também por isso que identifica uma lacuna no mercado editorial infantil português. “As opções adaptadas são escassas, muitas vezes inacessíveis e raramente juntam no mesmo objeto físico o livro tradicional, o Braille e a LGP a pensar na integração total”, explica.

O objetivo passa por provar que é possível criar livros “acessíveis, bonitos e pedagógicos” e abrir caminho para que mais editoras e autores sigam o mesmo percurso.

Do livro para o palco

“O Gato Tagarela” não ficará apenas nas páginas. A obra deu origem a um espetáculo de fantoches musicado, com canções originais compostas e interpretadas por Nádia Pereira.

“O livro e o espetáculo alimentam-se mutuamente”, explica. “O livro transporta a magia da leitura para o papel, enquanto o espetáculo dá vida física e sonora às personagens através de fantoches e canções originais.”

A nova versão do espetáculo será igualmente adaptada à vertente inclusiva e pretende proporcionar uma experiência de imersão na história. “As crianças sentirão que entram na floresta do Gato Tagarela, conhecem de perto os amigos do protagonista e mergulharão numa viagem de genuína comicidade, desenhada a pensar em cada uma delas.”

A experiência artística de Nádia ajuda a explicar esta abordagem. A artista tem formação superior em Jornalismo e passou depois pela dramaturgia, representação, clown e música.

“Percebi, neste trajeto, que sou uma artista multiespacial”, diz. Quando escreve dramaturgia, não se limita ao texto e imagina também “os figurinos, os cenários, a sonoplastia e a banda sonora”. Já o clown permitiu-lhe “fundir linguagens” e aproximar diferentes públicos.

Uma ferramenta para escolas e famílias

Nádia Pereira espera que a nova edição possa chegar a escolas, bibliotecas e instituições que trabalham com crianças, tornando-se “uma ferramenta de trabalho indispensável e um recurso precioso nas mãos de professores, educadores, pais e terapeutas”.

Para além de contar uma história, a ideia passa por transmitir desde cedo a ideia de que “não precisamos de ser iguais aos outros” e que cada pessoa é única nos seus talentos e na sua forma de ser.

“Quero que transmita às crianças, desde cedo, que as diferenças nos enriquecem, que há muitas formas bonitas de comunicar e que o mundo só ganha cor quando abraçamos a singularidade de cada um.”

Uma corrida contra o relógio

A campanha de crowdfunding entrou na fase decisiva. Nádia Pereira já conseguiu angariar 400 euros, mas precisa de chegar aos 1.777 euros para financiar a impressão do livro. “Num crowdfunding, a reta final é sempre uma corrida contra o relógio”, afirma.

A escolha do modelo de financiamento está relacionada com a especificidade do projeto. Segundo a artista, as editoras tradicionais nem sempre estão preparadas para avançar com livros que envolvem custos e exigências técnicas como o Braille e a LGP.

“O crowdfunding deu-me a liberdade de tomar as rédeas, falar diretamente com o público e construir este sonho em comunidade”, explica.

O modelo escolhido é “tudo ou nada”. Caso a meta não seja atingida, os apoios são devolvidos e o projeto não avança nesta configuração. Nádia garante, porém, que não pretende desistir.

“Desistir nunca é opção”, afirma. Se a campanha falhar, continuará à procura de apoios, mecenas ou alternativas para concretizar a obra.

A nova edição terá ainda algumas surpresas e uma homenagem ao avô Edmundo, “o artista da família” que a levou ao mundo da música. A ligação está também presente no espetáculo, onde Nádia toca a harmónica que lhe pertencia.

“Desde o livro ao espetáculo, tudo tem um caráter emotivo muito grande, quase uma missão de alma.”

Agora, a artista deixa um apelo aos leitores do Jornal 360. “Faltam poucos dias para fechar a campanha, ainda nos falta alcançar a verba necessária e, nesta fase, cada ajuda conta como nunca! Aproveito para deixar o convite para que sigam a minha página profissional (https://www.facebook.com/escritoranadiapereira/) e claro, o caminho que este projeto vai percorrer.”

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