Professor e escritor, Miguel Correia recupera memórias do pai numa obra que atravessa a pobreza, a marcenaria, a Guerra Colonial e o 25 de Abril
Miguel Correia, natural de Lordelo, em Paredes, acaba de lançar “O Menino Marceneiro”, um livro cuja personagem principal, Francisco Barbosa, foi inspirada em episódios da infância e juventude do próprio pai do autor e nas memórias de uma geração marcada pela pobreza, pelo trabalho e pelas profundas mudanças sociais e políticas vividas em Portugal durante o século XX.
A obra acompanha Francisco desde a infância, passada na Ribeira do Moinho nos anos 50, até à velhice, percorrendo diferentes momentos da sua vida e da história do país. Uma infância difícil, a aprendizagem da profissão de marceneiro, a Guerra Colonial e a Revolução de Abril fazem parte de um percurso marcado pela luta e pela procura de uma vida melhor.
Uma infância marcada pelas dificuldades
Francisco Barbosa cresce num contexto familiar difícil. Depois da morte do irmão Egas, é criado pelo avô Miguel, enquanto a mãe, carreteira, assegura o sustento da família com sacrifício.
Na escola, enfrenta também episódios de violência protagonizados pelo professor Caetano. Apesar de conseguir realizar os exames, não tem condições económicas para continuar os estudos.
É nesse contexto que aprende o ofício da marcenaria, profissão que viria a acompanhá-lo durante grande parte da vida.
Da Guerra Colonial ao 25 de Abril
A história acompanha depois a passagem de Francisco pela tropa e a chegada de um dos momentos mais marcantes da história contemporânea portuguesa.
Durante a Revolução dos Cravos, Francisco recusa disparar, num episódio que o livro recupera como símbolo das suas convicções e da transformação que o país atravessava.
Mais tarde, já adulto, casa com Leonor e continua a trabalhar como marceneiro. O casal tem um filho, João, que acaba por concretizar um sonho que o pai não conseguiu realizar: estudar e tornar-se professor.
É precisamente nessa relação entre pai e filho que a obra encontra uma das suas principais linhas narrativas. Francisco trabalhou para que o filho pudesse ter a oportunidade que lhe tinha sido negada.
Já idoso, acaba por partilhar a sua história com os alunos de João, numa passagem que aproxima a memória pessoal da educação e da transmissão de conhecimento entre gerações.
Uma personagem inspirada numa história familiar
Embora Francisco Barbosa seja uma personagem literária, a sua história tem uma forte ligação à realidade familiar de Miguel Correia. O autor recupera episódios que lhe foram transmitidos pelo próprio pai e transforma essas memórias numa narrativa ficcional.
Miguel Correia explica, na apresentação da obra, que os episódios da infância e juventude do pai estiveram na origem do livro, que assume assim também uma dimensão de homenagem.
A ligação à marcenaria é, aliás, particularmente forte. Antes de se dedicar ao ensino, o próprio Miguel Correia trabalhou como marceneiro, além de ter passado por áreas como o comércio, a administração e o setor do mobiliário.
Atualmente é professor de Filosofia no quadro da Escola Secundária de Odemira, depois de também ter trabalhado na área da Educação Especial e em diferentes regiões do país.
Natural de Lordelo, Miguel Correia mantém uma ligação próxima à terra onde cresceu. Na literatura, publicou anteriormente “A Rapariga e o Pastor do Crato”, em 2025, e tem ainda “O Chocalho e as Plumas”, atualmente no prelo.
Com “O Menino Marceneiro”, o escritor regressa às memórias familiares para construir a história de uma personagem que começa numa infância pobre, passa pela oficina de marcenaria e atravessa alguns dos períodos mais marcantes da história portuguesa, terminando naquilo que talvez seja a maior conquista de Francisco: ver o filho alcançar aquilo que ele próprio não pôde alcançar.


