Núncio Apostólico: «Ninguém tem o direito de rejeitar o estrangeiro»

D. Andrés Carrascosa alertou, em Fátima, para os momentos de «eclipse de Deus» na vida e lançou um forte apelo ao acolhimento de migrantes e refugiados, recordando aos portugueses a sua própria história de emigração.

O Núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa, afirmou esta quarta-feira, 12 de agosto, em Fátima, que «ninguém tem o direito de rejeitar o estrangeiro», deixando um forte apelo aos cristãos para que acolham quem procura noutro país melhores condições de vida.

Na homilia da Celebração da Palavra da Peregrinação Internacional Aniversária, o representante pontifício começou por transmitir aos peregrinos «a saudação e a bênção do Papa Leão XIV», que o enviou a representá-lo como Núncio Apostólico em Portugal.

D. Andrés Carrascosa destacou a diversidade dos peregrinos reunidos em Fátima, vindos «de muitos lugares diferentes, de todo o mundo», cada um com a sua história pessoal, problemas, dores, preocupações familiares e, em muitos casos, a experiência da falta de paz.

«Ninguém tem o direito de rejeitar o estrangeiro»

Numa peregrinação particularmente marcada pela presença de pessoas que fizeram ou estão a fazer a experiência da migração, o Núncio colocou este tema no centro da sua reflexão.

Recorrendo à Sagrada Escritura, recordou a ordem de Deus: «Não violarás o direito do estrangeiro», defendendo que a Palavra de Deus convida a olhar para o outro não como um estranho, mas como «um próximo que podemos amar concretamente».

D. Andrés Carrascosa evocou também a experiência adquirida durante a sua missão, sobretudo na Suíça e no Canadá, onde conheceu e acompanhou portugueses que tinham deixado o país à procura de trabalho.

«Quantas histórias de superação, mas também quanto sofrimento», afirmou, referindo a rejeição sofrida por quem é considerado estrangeiro.

Agora em Portugal, o Núncio disse cruzar-se com muitas pessoas provenientes de outros países que aqui vivem e trabalham, deixando uma das afirmações mais fortes da homilia: «Ninguém tem o direito de rejeitar o estrangeiro, tanto menos aqueles que nos chamamos cristãos.»

O representante do Papa dirigiu ainda uma palavra particular aos portugueses, lembrando que muitos sabem por experiência própria o que significa deixar a sua terra e partir para outros países e continentes.

Por isso, sustentou, «a memória das dificuldades vividas deve tornar-nos mais sensíveis ao sofrimento dos outros», recordando também as palavras do livro do Êxodo: «Vós conheceis o coração do estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito».

O «eclipse de Deus» nos momentos de dificuldade

Outro dos momentos fortes da homilia surgiu quando D. Andrés Carrascosa falou das situações em que o sofrimento pode levar a pessoa a sentir a ausência de Deus.

«Quantas vezes também na nossa vida atravessamos momentos de dificuldade, quase de eclipse de Deus que nos enche de escuridão», afirmou.

Partindo das Bodas de Caná, onde faltou o vinho durante a festa, o Núncio comparou essa situação aos momentos em que parece faltar na vida «o vinho da alegria e da vida de Deus».

É precisamente nesses momentos, explicou, que Maria apresenta a Jesus os problemas dos seus filhos e, como fez em Caná da Galileia, continua a repetir: «Fazei tudo o que Ele vos disser!»

Vela é sinal de fé e compromisso

D. Andrés Carrascosa deteve-se também no significado das velas que acompanharam a oração e a procissão. A vela acesa, explicou, é «um sinal da nossa fé e da nossa confiança em Nossa Senhora de Fátima», constituindo uma luz «num mundo escurecido».

Mas o gesto implica igualmente um compromisso: ser filhos de Maria que procuram fazer na vida aquilo que Jesus lhes diz.

O Núncio desafiou, por isso, os peregrinos a regressarem aos seus lugares de residência levando consigo a mensagem de Maria — «Fazei tudo o que Ele vos disser» — e advertiu que muitos sofrimentos e dificuldades podem acontecer ou agravar-se quando se percorrem «caminhos que estão longe de Deus».

Migrantes e refugiados confiados a Nossa Senhora

Na conclusão da homilia, o representante pontifício voltou ao tema das migrações, confiando a Nossa Senhora de Fátima «as vidas e os sofrimentos, as tristezas e as esperanças de cada migrante, de cada refugiado ou exilado».

D. Andrés Carrascosa sublinhou que o compromisso cristão não se limita a não violar os direitos de quem chega de outro país. É necessário, afirmou, «olhar com os olhos do coração e amar cada próximo como a nós mesmos».

A mensagem terminou com um apelo a seguir o exemplo de Maria, escutando e acreditando na Palavra de Deus: «Bem-aventurados seremos, como Maria, se acreditamos naquilo que Deus, na sua Palavra, nos está a ensinar».

Por: Sérgio Carvalho (sergiocarvalho@jornal360.pt)

Fotos: Santuário de Fátima

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