Homem injeta veneno de cobra durante anos e contribui para criar antídoto

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Norte-americano expôs-se ao veneno durante quase duas décadas e acabou por colaborar no desenvolvimento de um possível tratamento universal

Durante cerca de 17 anos, Tom Friede, cidadão dos Estados Unidos a viver no Wisconsin, levou a cabo uma experiência pouco comum: administrava a si próprio pequenas quantidades de veneno de cobra com o objetivo de desenvolver resistência no organismo e reduzir os riscos de uma eventual mordedura.

Os primeiros sinais relevantes surgiram em 2001, quando foi mordido por duas serpentes venenosas, uma cobra egípcia e, pouco depois, uma monocled. O incidente deixou-o em coma durante quatro dias. Após recuperar, decidiu continuar com o processo, passando a utilizar venenos de 16 espécies diferentes, incluindo taipans, mambas, cobras aquáticas e cascavéis.

Ao longo de quase duas décadas, Friede terá sido mordido mais de 200 vezes e administrado a si próprio centenas de injeções com veneno extraído dos seus próprios répteis. A lógica era estimular o sistema imunitário através de exposições controladas, levando o corpo a produzir anticorpos capazes de neutralizar toxinas.

A sua história chegou ao investigador Jacob Glanville, que procurava desenvolver um antídoto de largo espectro contra venenos de cobra, responsáveis por mais de 140 mil mortes anuais, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Friede acabou por integrar o projeto da empresa Centivax, na Califórnia.

Com base nos anticorpos presentes no sangue de Friede, a equipa científica criou uma combinação de três elementos: dois anticorpos humanos (LNX-D09 e SNX-B03) e o varespladib, uma substância que bloqueia uma enzima comum em muitos venenos. Em testes realizados em laboratório, este composto conseguiu proteger ratos contra o veneno de várias espécies, alcançando resultados particularmente eficazes em grande parte dos casos analisados, conforme publicado na revista Cell.

Apesar dos resultados promissores, o tratamento ainda não foi testado em humanos. Ainda assim, os especialistas acreditam que, por recorrer a anticorpos humanos, poderá apresentar menos efeitos secundários do que os antídotos convencionais, normalmente produzidos a partir de cavalos.

Nesta fase, a investigação está focada sobretudo em serpentes da família das elapídeas, como mambas, cobras-coral e taipans. No entanto, há planos para expandir o estudo a outras espécies, incluindo víboras e cascavéis, bem como para testar a eficácia do tratamento em animais, nomeadamente cães, em colaboração com veterinários na Austrália.

Tom Friede deixou de realizar auto-injeções em 2018. Atualmente, aos 57 anos, mantém um estado de saúde estável, sendo acompanhado regularmente com exames médicos. Continua ligado à Centivax, onde desempenha funções na área da herpetologia e participa no desenvolvimento de um possível antídoto universal.

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