Natural de Freamunde, Jorge Martins tem 50 anos e uma ligação à música que nasceu sem planos, sem escola e sem guião. Foi o acaso, ou talvez a intuição, que o levou ao cavaquinho português há mais de duas décadas. Desde então, nunca mais o largou.
Hoje, soma 23 anos de um percurso feito entre palcos, salas cheias, projetos solidários e ensino. Mas também entre dores, superação e reinvenção. Porque há cerca de ano e meio, um acidente mudou-lhe a forma de tocar e, inevitavelmente, a forma de viver a música.
“Entrou de forma muito natural. Sempre gostei de música e um dia peguei no cavaquinho e comecei a experimentar e a descobrir”, recorda. Sem formação académica, construiu tudo sozinho, num processo de tentativa e erro que o moldou como músico e como criador.
Essa ausência de escola acabou por ser, no seu entender, uma liberdade. Uma liberdade que lhe permitiu fugir ao convencional e desenvolver uma linguagem própria no instrumento. “Se tivesse andado numa escola de cavaquinhos, que não existe, não fazia metade do que faço. A minha forma de tocar é moderna e atual”, afirma, defendendo uma visão menos tradicionalista do instrumento, que considera muitas vezes subvalorizado.

Ao longo dos anos, a estrada tornou-se sala de ensaio e palco. Do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, ao Museu dos Cordofones, passando por concertos em várias cidades do país, Jorge Martins foi levando o cavaquinho a públicos diversos, muitas vezes em contextos marcados pela emoção e pela proximidade.
“Guardo sobretudo os momentos mais simples, em que senti que a música chegou às pessoas”, diz. Entre esses episódios destaca também o concerto no Hospital de Amarante, um local com significado pessoal, onde recentemente voltou a atuar numa iniciativa do Dia Mundial da Saúde, num momento que acabou por ganhar forte simbolismo público.
Mas o percurso de Jorge Martins não se resume à performance. O ensino tem sido uma parte essencial da sua vida musical. Ver alunos crescerem do zero é, para si, uma das maiores recompensas. “É muito gratificante. Dá uma satisfação enorme ver alguém começar e conseguir tocar.”
Nos últimos anos, o seu trabalho também ganhou outra dimensão: a digital. Os vídeos partilhados pelo músico ultrapassaram já o milhão de visualizações em cerca de ano e meio, contribuindo para uma nova perceção do cavaquinho português, que procura afastar do estigma de “instrumento menor”.

O acidente e a superação
O ponto de viragem mais duro, porém, chegou há cerca de ano e meio, quando sofreu um acidente na mão esquerda que quase lhe custou um dedo. A recuperação foi longa e deixou marcas permanentes. Hoje, toca com apenas três dedos funcionais.
“Foi um momento muito difícil. Houve claramente um antes e um depois”, admite. Durante esse período, teve de escolher entre parar ou reinventar-se. E escolheu continuar.
“O mais fácil era desistir e deixar de fazer algo que gosto. Mas escolhi não desistir”, afirma. E não só não desistiu como voltou com uma abordagem ainda mais exigente consigo próprio.
O regresso ao cavaquinho não foi simples. O primeiro contacto com o instrumento após o acidente foi quase um teste emocional. “Tocar novamente foi um momento de dúvida, mas também de muita vontade”, lembra, referindo um concerto no Museu dos Cordofones, ainda com a mão ligada, como um dos momentos mais simbólicos dessa fase.
Desde então, foi obrigado a reinventar a técnica. Simplificar, adaptar, reorganizar movimentos. Mas também a descobrir novas possibilidades dentro das limitações. “Foi um processo de adaptação e superação.”

Uma nova relação com a música
Hoje, essa experiência mudou a forma como olha para a música. Mais do que execução técnica, passou a ser presença, significado e escuta. “Dou mais importância a cada momento, a cada som… acho que reaprendi a viver.”
A história de Jorge Martins é, no fundo, a de um músico que recusou parar quando a vida lhe impôs uma pausa forçada. E que transformou essa limitação numa nova forma de expressão, mais crua, mais consciente e, talvez por isso, mais intensa.
