O linguista e crítico literário Marco Neves partilhou com o Jornal360 o seu olhar sobre António Lobo Antunes, recentemente falecido, destacando a singularidade da sua escrita e o impacto que deixa na literatura portuguesa.
Para Marco Neves, a obra de Lobo Antunes vai muito além do significado literal das palavras: “Em António Lobo Antunes, as palavras são usadas com um valor que vai para lá do significado: é a sonoridade, é o valor social da palavra, é a ligação a grupos sociais particulares… É certo que podemos dizer o mesmo de muitos escritores, mas Lobo Antunes leva as emanações sociais, imaginativas, metafóricas da língua a um pico que é difícil explicar.”
O professor sublinha que a língua nos romances de Lobo Antunes é “material recriado a cada frase, a cada repetição, a cada voz que se mistura com as vozes das outras personagens num estilo só dele, mil vezes imitado, nunca alcançado”, e acrescenta que os romances colocam aos tradutores um tremendo desafio. “Perante os romances de Lobo Antunes, há uma pergunta: como traduzi-los? Como é possível que os romances de António Lobo Antunes sejam traduzidos quando dependem tanto e de forma tão intensa da utilização particular de cada palavra no contexto social português e, às vezes, da rua de Benfica a que se referem? A verdade é que são traduzidos e a sua genialidade reaparece nas reconstruções dos seus livros noutras línguas.”
Marco Neves destaca ainda que esta atenção ao detalhe linguístico e social faz de Lobo Antunes “o grande escritor da nossa língua, tal como falada no Portugal das décadas que lhe calhou viver”, sublinhando o peso histórico e cultural que a sua obra carrega.
O linguista recorda também um momento pessoal com o escritor: “Lembro-me de o conhecer ao vivo numa apresentação de um livro meu sobre José Cardoso Pires. Aí testemunhei que, além de grande escritor, era um grande amigo dos seus amigos. Ficam agora os dois a beber um copo e a conversar entre fumos e palavras.”
Para Marco Neves, a morte de António Lobo Antunes representa uma perda irreparável para a literatura portuguesa, mas o legado do escritor, a intensidade da linguagem, a profundidade dos temas e a singularidade do estilo, continuará a desafiar leitores e tradutores por todo o mundo.

